DESABAFOS DE UM DIA CINZA.



Sempre morei em casas razoavelmente grandes, daquelas com quintal, com árvores cheias de frutas, com jardins. Depois vieram os apartamentos que, por mais simples que fossem, sempre tinham uma cobertura a céu aberto, um playground, um lugar pra ir quando as paredes parecem encolher, sabe? Sempre corria para os tais "cantinhos de paz", quando tudo ficava difícil demais e a ausência de lugares assim faz com que eu me sinta como bicho em cativeiro. Me sinto menor a cada dia e os cômodos tem diminuído mais rápido do que minhas pernas, tentando escapar de tudo que berra do lado de dentro.

Sinto falta de sair na varanda só pra olhar pro céu, colocar no último volume minha playlist de dias nublados, mesmo quando a noite era de céu estrelado. Era o meu jeito de não me importar com mais nada. Sinto falta de poder andar pelo quintal, sentindo as folhas secas quebrarem debaixo dos meus pés exaustos, esbarrando em pitangas beliscadas pelos passarinhos que me acordaram logo cedo. Sinto falta de caminhar sem rumo pelas ruas enquanto a chuva tirava a maquiagem diária de fingir sorrisos. Sinto falta de voar, mesmo que nunca tenha tirado os pés do chão. E, principalmente, sinto falta do mar.

Hoje, já bem longe das ondas calmas que me faziam sentir em casa, caminho entre os carros da cidade, em calçadas tão esburacadas quanto minhas promessas para o espelho. Ainda piso em folhas secas, mas não mais as sinto debaixo dos meus pés. Não há passarinhos ou frutos mordiscados. Há um tanto de sujeira pelas ruas e um bocado de poluição pra respirar. A chuva escorre pelos meus olhos, rasgando minha pele gelada pelo vento, e não há mar para aliviar o peito.

Abro o portão, subo as escadas e aqui estou, mais uma vez, no meu cativeiro. Estranhamente, depois de algum tempo, até me parece seguro. Da meia janela metálica posso ver as cores dos prédios vizinhos, posso contemplar o pôr-do-sol na ponta do morro e me permito derramar algumas lágrimas quando ele se esconde por trás do edifício ao lado. Não há cobertura, playground, quintal ou jardim. E, confesso, todos os dias diminuo um tanto até — talvez — desaparecer, um dia, quem sabe.

As paredes ainda me assustam, não vou mentir. Ainda enlouqueço vez ou outra e saio correndo em busca do primeiro resquício de verde que encontro. Ainda me perco nas praças escassas por aí, mas no fim do dia ainda volto para a mesma janela lateral e aumento o volume da playlist de dias nublados, já que aqui tudo é cinza, mesmo quando há sol.

— Pra quê essa música nesse volume? Você ainda vai ficar surda.
— É para ver se disfarço os berros do peito.

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