A SAUDADE DE ANTES E A (NECESSÁRIA) DISTÂNCIA DE AGORA.



Estava esperando o farol abrir quando te vi naquele bar da esquina. Para a minha surpresa, você estava com um copo de cerveja na mão. Logo você, que dizia detestar cerveja... Lembra quantas vezes eu tentei te convencer a mudar de ideia, te oferecendo alguns goles das mais diversas marcas para ver se você finalmente iria gostar? Você bebia e, logo em seguida, fazia aquela sua careta clássica de quem achava a cerveja amarga demais.

Muitas destas tentativas foram neste mesmo bar, aliás. Nós vivíamos ali, quase sempre em plena madrugada, comendo aquela porção de petisco gordurosa que matava a nossa fome. Você dizia que ainda iríamos passar mal por causa dela, esquecendo-se das caipirinhas que tomávamos, das cervejas que eu bebia e do cigarro que você acendia a cada cinco minutos. Eu dava risada e dizia que é melhor passar mal do que passar vontade. Você concordava, pedia uma água para matar a sede e amenizar a bebedeira... E nós ficávamos ali até sermos expulsos pelo garçom.

"Vão querer mais alguma coisa? Vamos fechar a cozinha e o bar". Ouvimos isso em todas as vezes que nos juntamos ali. Quase todos os garçons já nos conheciam. É claro que estas lembranças vieram à tona assim que eu te olhei e eu confesso que senti saudade. Por ironia do destino, deu para ouvir a música que a banda tocava: "I'll bethere for you" do Bon Jovi. Cantamos ela inúmeras vezes, em alto e bom som (aos gritos, para ser mais claro), como uma declaração de amor, como uma forma de selar a nossa união. Naquela época, nós ainda acreditávamos que éramos para sempre, que nada nem ninguém iria nos separar e que seríamos incapazes de vivermos um sem o outro.

Agora eu estava ali, um ou dois anos depois, parado a poucos metros de você e te observando só de longe como um desconhecido. Você estava encostada no muro com o seu velho All Star branco, uma saia jeans e aquela camiseta preta e rasgada que você não largava. Pelo visto, algumas coisas não mudam e ela continua sendo a sua preferida. Seus olhos estavam brilhando e você deu um sorriso largo e sincero enquanto conversava com alguém que eu não reconheci. Não sei dizer se é amigo, namorado... Mas sabe, você me fez sorrir ali, mesmo de longe, mesmo sem saber, só pelo fato de te ver feliz.

Eu até senti vontade de te chamar, te dar um oi, mas me contive no segundo seguinte. Eu sabia que, ao fazer isso, eu poderia facilitar uma (re)aproximação nossa e tudo se tornaria um caos depois de alguns poucos dias, meses ou talvez anos, já que até mesmo as nossas semelhanças parecem artimanhas para nos separar. De qualquer forma, sei que nada mais seria como antes... Nós fomos feitos para sermos felizes, mas longe um do outro.

Por isso, prefiro assistir a tua alegria daqui de fora, escondido. E então, toda vez que eu te olhar (seja a alguns metros de distância ou em uma fotografia qualquer), toda vez que eu sentir que você está seguindo em frente e vivendo a sua vida de um jeito que te faz sorrir, eu vou sorrir também. Porque mesmo não sabendo se deixei de te amar ou se apenas te amo de um jeito diferente, eu nunca deixarei de querer o seu bem (e nem de estar sempre aqui para você, ainda que os seus olhos não me vejam, exatamente como diz a nossa música).

♥ ♥ ♥ 

BEATRIZ ZANZINI
Jornalista, escritora e filósofa de bar. Escrevo em uma tentativa de me descobrir e também de desvendar o mundo. E então percebi que, ao compartilhar minhas ideias e sentimentos, às vezes consigo ajudar não só a mim mesma, mas também outras pessoas que se identificam com as minhas vivências. Isso me traz uma inspiração ainda maior a cada dia.

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