QUEM AMA MENTE.



Dia desses, conversando com uma amiga, ouvi a frase "quem ama não mente". Refleti sobre ela durante um tempo, mas numa fração de segundos pude ter a resposta na ponta da língua. E aqui, tirei mais alguns minutos pra discorrer sobre o assunto. Quem ama mente sim.

Acontece que, por pior que seja admitir isso, todo mundo já contou alguma mentira na vida. Pros pais, pra professora, pro chefe, pro vizinho, pro cachorro ou pro irmão. Até pro espelho há quem tente mentir — ainda que ele jogue a verdade na nossa cara de forma bruta e insensível.

Não me interpretem mal, não defendo o ato de mentir por mentir, pelo contrário. Sou totalmente contra as mentiras, até mesmo as "inofensivas". Pra mim não existe mentira pequena ou grande, o que existe é uma covardia enorme de falar a verdade, por qualquer que seja o motivo.

Ainda assim, não posso dizer que nunca menti ou que nunca perdoei uma mentira — essa seria mais uma delas. Não posso dizer que nunca fingi gostar de um presente que não me agradou, só por ver o olhar de esperança de alguém ao observar o desamarrar de uma fita. O fato é que a gente conta pequenas mentirinhas, por saber que nem sempre a verdade é a melhor saída.

E dentro de um relacionamento as coisas não são muito diferentes. A gente mente quando diz que tá tudo bem, mas estamos putos da vida por que a toalha molhada está — de novo — em cima da cama. Mas o dia começou tão bem, que não dá vontade de azedar por causa de uma toalha. Afinal, "não vai cair a minha mão se eu pegar e estender, né?". A gente mente quando diz que o primeiro feijão ficou ótimo, que só precisava de um pouquinho de sal, mesmo sabendo que ficou um pouco duro. Não é por mal, é por saber que se, de cara, jogarmos a verdade na cara, sem dó, podemos desencorajar e essa não é bem a ideia.

A gente mente quando diz que não se importa com o estilo do vestido, mesmo achando que aquele monte de tecido entrelaçado é esquisito. Não dá pra falar a verdade quando o brilho do sorriso dela, rodopiando descalça pela sala, compete com o sol que invade as janelas. A gente começa mentindo e termina rodopiando também.

É aniversário de namoro e o dia promete, mas justo naquele dia teu chefe te deu a maior canseira e você preferia ficar em casa, com a cabeça enfiada no travesseiro. Cinco minutos depois, a mensagem. "Amor, conseguiiiiii! Reserva feita no nosso restaurante preferido. Falei com a Duda e ela conseguiu um encaixe com um amigo que trabalha na recepção". E você mente quando finge animação pra passar a noite com toda a pompa que o lugar pede, mesmo desejando estar sem roupa, debaixo das cobertas, assistindo Netlifx ou jogando Candy Crush até pegar no sono. Até que você se vê na maior empolgação pra escolher a roupa que vai usar no jantar, só por saber o quanto é importante, também, para o outro. Não é por mal, é por amor.

Quem ama também mente quando não deveria. Quando não conta tudo que a ex falou, quando mandou mensagem durante o expediente, por saber que ninguém iria fiscalizar. Quando o cara gato do trabalho deu uma cantada, justamente no dia em que a estima estava lá embaixo. Não foi nada, mas fez bem. E nem sempre o outro é capaz de entender isso, certo? Quem ama mente quando não tá afim de discutir e falar que parou num bar pra tomar uma cerveja ao invés de fazer hora extra, como contou. Que mal há nisso?

Todo.

Como disse, não defendo essas pequenas mentiras, mas dizer que aquele que ama não as conta, seria pura hipocrisia. Seria utópico demais. Num relacionamento as mentiras podem existir, independente de ser começo ou meio da relação e, por mais que seja bem chato falar a verdade, a gente precisa admitir que passa por cima de muita coisa quando ama. A gente cala muita vontade, opinião. Até que não dá mais e a gente abre o jogo — ou o outro descobre. E aí rolam as discussões que todo casal — ou, pelo menos, a maioria esmagadora — passa. E é a coisa mais normal que existe. Mas é isso, passa.

Relacionamento é construção e, ainda que meus exemplos não tenham sido os melhores, de vez em quando as mentiras e as descobertas fazem parte disso. Elas estão ali, na massa que sustenta todo um edifício. Admitir isso não é crime, não é inaceitável. O que não dá é pra fingir acreditar enquanto o outro finge falar a verdade, o tempo todo. O que não dá é pra viver num palco, atuando o tempo todo.

Quem ama mente, mas quem ama também pode perdoar.

"Mentiras sinceras me interessam"
— Cazuza

♥ ♥ ♥ 

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