EU VENCI O DESAFIO, E VOCÊ?



Eu poderia começar esse texto contando tudo que você me fez passar nos anos em que andamos lado a lado, mas não vou. Eu poderia contar das diversas vezes em que você me fez crer que eu não poderia, em hipótese alguma, ser feliz, completa ou bem sucedida sem que você me ajudasse, mas eu não vou. Eu poderia começar falando de como você fodeu meu psicológico, disfarçando seu controle com uma máscara de proteção, mas eu não vou.

Só que tem uma coisinha que, para alguns, pode até parecer insignificante, mas que para mim foi o fim — ou melhor, foi o começo de tudo.

Tudo teve início num começo de noite, no meio de uma semana qualquer, num bar qualquer do nosso bairro. Era fim de tarde quando você apareceu e disse que precisávamos conversar, saiu batendo a porta e caminhando em direção à nossa casa. O bar inteiro ouviu e senti meu rosto corar por um segundo, mas não era de vergonha. Era raiva. Era adrenalina pura. O sangue corria em velocidade máxima e meus passos em sua direção eram desenfreados. Larguei minha cerveja recém aberta no balcão, deixei celular e carteira em cima da mesa e cheguei em casa antes mesmo de você fechar o portão. Estava decidido, naquele dia daríamos um ponto final.

Você começou a conversa falando sobre respeito, ética e responsabilidade. Sua dialética era perfeita e, se não fossem os anos de experiência e os olhos bem abertos, eu poderia ser facilmente convencida de que qualquer coisa errada era culpa exclusivamente minha. Você sempre foi o tipo de pessoa que olha para uma parede branca e consegue convencer a todos de que ela é roxa, independente do que se mostra diante dos olhos de uma multidão. Eu sempre fui o tipo de pessoa que dizia amém para tudo que você afirmava. Não mais.

Contrariando todas as suas expectativas — estampadas no seu olhar de indignação —, não cedi. Os pés estavam firmes no chão e as mãos não tremiam. Pela primeira vez não gaguejei ao te dirigir minhas palavras. Eu estava decidida e não havia argumento algum capaz de me fazer mudar de ideia, exceto um pedido de desculpas sincero e o reconhecimento de que você — ao contrário do que gostava de bradar aos quatro cantos — precisava de ajuda muito mais do que eu. Mas o pedido não veio. No lugar, ouvi desculpas esfarrapadas e incontáveis mentiras. Era sua arte, sua obra-prima. 

"Algumas mentiras são necessárias" — era seu discurso predileto. Mais tarde entendi que quem ama também mente, mas o exagero faz mal em qualquer âmbito. Só você não percebia, mas com o passar dos anos eu já não te reconhecia mais, já não sabia quem era aquela pessoa que dividia o mesmo teto que eu e era tão estranha quanto alguém que esbarra em mim no meio da rua. Esbarrei nas tuas mentiras tantas vezes, mas naquela noite eu parei e entendi que o erro não era meu. Elas estavam no meu caminho. No nosso. E você se recusava a retirá-las.

Ainda assim, mesmo depois de tudo que descrevi, eu tinha fé. Eu acreditava que em algum lugar da sua memória ou da sua consciência você se arrependeria das atrocidades que cometera ou dos absurdos que deixara escapar pelos lábios, mas minha fé se desfez no instante seguinte, quando você tomou a última atitude aceitável: você me desafiou. E essa foi a pior coisa que você poderia ter feito.

"Quero ver o que você vai fazer sem mim. Como vai se virar? Vai começar do zero? Eu duvido"

(...)

Alguns anos se passaram e hoje eu posso dizer, com toda certeza do mundo: eu venci o desafio. Posso não ser a mulher mais bem paga da cidade, posso não morar em um bairro nobre nem comer filet mignon todos os dias. O meu azeite não é o mais caro e minhas roupas não são de marcas conhecidas. Eu ainda ando de ônibus e meu celular não está na lista dos últimos lançamentos. Eu não fiquei famosa nem tenho a conta bancária recheada de zeros, mas eu sou mais rica do que já fui em toda a minha vida.

O que você, claramente, não entendeu é que não preciso de nada disso. O que você nunca enxergou é que, ao contrário de você, pouco me importa se tenho todo o luxo listado acima, eu tenho riquezas que não se compram, tenho bens que não se sorteiam em loteria, tenho motivações que não se encontram em vitrine alguma. Não há dinheiro no mundo capaz de te dar tudo que eu, apesar de você — como cantava Chico —, conquistei e descobri.

Honestidade. Respeito. Lealdade. Humildade. Cumplicidade. Fé. Empatia. Esperança... AMOR.

(...)

Terminamos a conversa com juras de até um dia, quem sabe. Pela primeira vez, nenhuma lágrima rolou. Nenhum arrependimento. Nenhuma palavra havia sido dita por acaso. Caminhei de volta até o bar da nossa rua e, como um sinal, quando passei pela porta um clipe já conhecido começou a rolar na televisão. E foi Katy Perry que me disse que tudo iria ficar bem, apesar de você. E você ainda vai me ouvir rugir...


"Eu costumava morder minha língua e prender a respiração
Tinha medo de virar o barco e fazer bagunça
Então me sentava quieta, concordava educadamente
Acho que me esqueci que tinha uma escolha
Deixei você me empurrar além do ponto
Suportei por nada, então eu caí por tudo"




♥ ♥ ♥ 


*Para fins de direitos autorais, declaro que as imagens utilizadas neste post não pertencem ao blog. Qualquer problema ou reclamação quanto aos direitos de imagem podem ser feitas diretamente com nosso contato. Atenderemos prontamente.

3 comentários :

Postar um comentário

E aí, o que achou? :)

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...