VINHO, CIGARRO E DESPEDIDA.


Passara os últimos dias sem pronunciar uma palavra sequer e eu, em silêncio estava, em silêncio fiquei, somente a te observar. Com o passar do tempo a falta da tua voz falou mais alto, mas o máximo que conseguia arrancar de ti era um “me deixa”, “não fala nada, por favor” ou “eu não quero conversar”, sempre que eu tentava puxar qualquer assunto. A cada resposta, minh’alma congelava a tal ponto que nem o aquecedor seria capaz de reverter o inverno que se se instaurou cá dentro — ainda que eu o tenha causado.

Confesso que as noites sem teu corpo junto ao meu foram mais cortantes que qualquer frio, mas, mesmo assim — com grande esforço, confesso — dormi. Fui traída pelos meus sonhos, onde a distância entre nós não passava de pesadelo e acordava com teus beijos novamente. Amanhecia com teu abraço acolhedor e teu cheiro de bom dia a me entorpecer. Ao acordar na madrugada, notei apenas o teu lado da cama ainda arrumado, intacto, vazio. Tanto quanto a minha vida, sem ti.

Esta noite o sofá da sala lhe pareceu mais apropriado.

Meus pés tentaram caminhar até você, minhas mãos quiseram acariciar teu rosto e minha boca quis te despertar com um beijo na testa e um "vem pra cama, amor", mas quem sou eu pra reclamar ou perguntar o que de mim será, se fui eu quem imaginou, gritou, berrou e pensou ter razão? Quem sou eu pra questionar o que de nós será, se fui eu quem criou a tempestade, derrubando o pouco que restou de nós? Ninguém. Sem ti, é só o que me resta ser.

Eu sei, foi da minha boca que saíram as acusações, as especulações absurdas que o tal ciúme debruçado em meu peito me fez sentir. Ainda assim, te peço, tenta enxergar que ao menos o meu medo tem razão de existir. Imaginar um outro alguém, tão feliz quanto eu, a receber teus carinhos, a ter o teu querer, o teu sentir, o teu amar… Me enlouqueceu.

Hoje eu sei, teu amor sempre foi só meu, mas hoje o saber não adianta mais. Hoje já é tarde. Hoje será a última noite lilás na sala que agora exala vinho, cigarro e despedida. A luz do abajur ilumina a cena, como num filme de baixo orçamento, e eu — mera espectadora daquele momento único, entre uma taça e outra de vinho —, me vi estática, petrificada, completamente envolvida pelo olhar que nada expressa e, ao mesmo tempo, tudo me diz.

Eram altos os berros e me ensurdeciam a cada piscada. Foram poucos os minutos a observá-los, mas foram suficientes para eternizá-los mentalmente, inúmeras vezes, detalhe por detalhe. Teus olhos castanhos que, quando úmidos, disfarçam-se de ébano. Negros, carregados de mistérios que eu, deliciosamente, tentava desvendar. Não deu tempo.

Quando finalmente o sol já apontava nas janelas mal cobertas, teus olhos me encontraram na outra ponta da sala. E já era tarde demais. As malas já estavam prontas e tua decisão já estava tão tomada quanto a garrafa de vinho em cima da mesa de centro, tão negra quanto teus olhos ao me olhar pela última vez antes de sair pela porta.

E eu, na companhia da taça vazia manchada de batom, me perguntava: "E agora, que será da vida sem o meu amor?"

♥ ♥ ♥ 

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