NEM TODO SAMBA É SEM FIM.



Quis te contar que esgotei a memória do meu celular com os registros das ligações que eu não te fiz e das mensagens que não enviei, pra te contar da tal saudade que dominava meus dias que sem você, foram monocromáticos. Coloquei carneirinhos pra dormir contando todos os passos que não demos juntos ou as ruas por onde não caminhamos de mãos dadas. Quantas noites não entrelaçamos pernas e corpos nem dormi no teu peito. Contei também quantas manhãs não te vi acordar sorrindo bom dia, quantas músicas não cantei pra te fazer adormecer e quantos filmes não contaram nossa história.

 Acabei perdendo as contas de quantos cadernos eu gastei pra listar todos os planos que não fizemos, as contas que não dividimos, as casas onde não moramos, as reformas que não fizemos, as decorações que não planejamos, os filhos e os cachorros que não tivemos. Cansei os ouvidos de todas os meus amigos, com as minhas incansáveis ideias de tudo que poderíamos ter vivido, não fosse esse tal Sr. Medo, parente da Dona Insegurança e conhecidos da Srta. Burrice, visitas frequentes e indesejadas nos meus dias.

Falei também sobre o ódio que nunca senti por você e daquela vontade que nunca tive de me afastar. Sei não, talvez seja um tanto masoquista, mas sempre me mantive por perto, mesmo isso me custando alguns bons trocados gastos com band-aids e merthiolate. Ardi por você, esquecendo de procurar uma cura, por mim. Nunca permiti que a casca se formasse e lá estava eu, mais uma vez, te assistindo em silêncio enquanto você publicava em todo canto o quanto estava feliz com seu emprego novo na empresa que te indiquei. Com a namorada nova, amiga de uma amiga que te apresentei.

Disquei teu número algumas vezes semana passada, mas não tive coragem de apertar o botãozinho verde e despejar em ti tudo que me tira o sono. Lembrei de todos os teus convites que recusei, todas as vezes em que te dei as costas e fui embora sem motivo aparente. É que eu não queria ter que te dizer. Precisava que você reparasse, mas você não viu. Você não me viu.

Já não sei mais quantos sambas cantei ou quantas cervejas tomei nos bares onde poderíamos escrever nossa história. Já não sei mais quantos garçons se entediaram com minhas lamúrias de um talvez que se tornou nunca mais. Pega o telefone e liga logo — todos os pedidos em vão. É verdade, eu tentei. Mas não contei. Não liguei. Não escrevi. Me calei. Me fechei. Me afastei. Te odiei. Até que, ao receber o envelope com teu convite de casamento eu, finalmente, entendi. Eu te amei, mas isso eu também não te contei.

♥ ♥ ♥ 

*Para fins de direitos autorais, declaro que as imagens utilizadas neste post não pertencem ao blog. Qualquer problema ou reclamação quanto aos direitos de imagem podem ser feitas diretamente com nosso contato. Atenderemos prontamente.

6 comentários :

Postar um comentário

E aí, o que achou? :)

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...