O QUE É SER UM ESCRITOR?



Certa vez dei uma entrevista para um site e me pediram que respondesse essa pergunta. Recebi-a por e-mail e, confesso, levei algumas horas para conseguir colocar em poucas palavras o que, para mim, faz de alguém um escritor.

É necessário ter seu nome impresso na capa de um livro? Ser co-autor de alguma trilogia de sucesso? Estar em alguma coletânea lançada com outros tantos? Dominar perfeitamente sua gramática? Nunca errar uma vírgula? Ser comparado aos grandes?

Nada disso. Estas são apenas consequências para os que verbalizam a vida, seja no papel, na máquina de escrever ou numa tela em branco com um cursor piscando. Independente de onde são despejadas as palavras, ser escritor, na minha humilde opinião, é bem mais que isso.

Poder tocar seu próprio nome impresso, tornar palpáveis seus pensamentos mais loucos é algo indescritível, suponho. Mas isso não muda o fato de que ser escritor é, também, rabiscar folhas amassadas e guardá-las num armário a vida inteira. É parar o que quer que esteja fazendo para salvar uma ideia e desenvolve-la posteriormente, evitando noites insones. E, acredite, para um escritor não há nada pior do que ter uma ideia e perde-la.

Sim, meus caros, para mim escritor é todo aquele que tem a necessidade de sê-lo ou enlouquece. Não cabe obrigação de rima ou estrutura perfeita. Não cabem rótulos, capa, prefácio e sumário. É o meio que conta. É o enredo.

Ser escritor é ser corpo repleto de palavras. É transpirar frases pelos poros. É chorar reticências e sorrir exclamações. É cantar refrões desconexos em silêncio e cair no sono ouvindo a música da tinta encontrando as linhas, às vezes tortas, dos cadernos. É escrever a lápis também, pintando os dedos com o grafite que escapa do papel e colore o que a alma desenhou com letras. É ouvir o samba das teclas que apanham caladas e dançar entre páginas, parágrafos, estrofes, rimas e margens.

É, ainda, não saber escrever uma letra sequer e, ainda assim, enxergar os dias — as ruas, os carros, o céu, o beijo na chuva e o abraço — com olhos marejados de poesia, ainda que nem todo escritor seja poeta. O segredo está no sentir, não no saber.

Ninguém se torna escritor. Ninguém escolhe. Nasce e, quando menos percebe, já o é. Se tiver sorte ou trabalhar arduamente, poderá ser autor de um best-seller ou somente encantar os poucos para quem mostra sua alma. Pouco importa.

Aos que traduzem a vida, um prêmio. João pode ser Carla. Beatriz pode ser Clarice. Pedro pode ser Marcelo. Fernanda pode ser Caio. Joyce pode ser Malu e Rafael ao mesmo tempo. Ju pode ser Mel. Ana pode ser nuvem e Eduardo pode ser rio. Diego pode ser mesa. Marina pode ser café e Maria pode ser saudade. São, além do que nasceram, o que quiserem. Basta que imaginem.

Talvez esse seja o segredo. Enxergar o mundo inteiro com olhos de criança, vendo brilho no que passa despercebido pelo olhar da maioria. Talvez seja viver numa eterna transição de personagens que nunca encontram o papel, mas existem pelo simples fato de que alguém os criou. Ser escritor é ser, sem perceber.

"Se o fazes por dinheiro ou fama, não o faças. Se o fazes para teres mulheres na tua cama, não o faças. Se tens que te sentar e reescrever uma e outra vez, não o faças. Se dá trabalho só pensar em fazê-lo, não o faças. Se tentas escrever como outros escreveram, não o faças. (...) A menos que saia da tua alma como um míssil, a menos que o estar parado te leve à loucura ou ao suicídio ou homicídio, não o faças." [Então queres ser um escritor?, por Charles Bukowski]

2 comentários :

Postar um comentário

E aí, o que achou? :)

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...