HOJE O MEU TELEFONE VAI FICAR EM CASA



Hoje o meu telefone vai ficar em casa.

Eu finalmente deixei de lado as minhas dores e decidi viver, só pra variar. Deixei fechada aquela caixa abarrotada de lembranças tuas-nossas. Deixei de sentir teu cheiro que, infelizmente, tomou conta do meu travesseiro e do teu pijama, ainda jogado em cima do sofá. Troquei o lençol amarrotado e aquela pontinha do colchão que ficou descoberta depois de você aparecer. Me liberto do teu vício de sempre bagunçar muito mais do que a cama quando me visita. Não vou mentir! A sua falta ainda incomoda, mesmo depois de tanto tempo. Também não vou dizer que nunca mais abri aquela caixa ou vesti o teu pijama. Não vou fingir que não abracei o travesseiro - segundos depois de você ter saído pela porta - tentando acreditar que aquele ponto final tinha sido só um pesadelo, só pra te sentir por perto, mesmo sabendo que você está a muitas mágoas de distância. Um abismo de feridas e decepções nos afasta, eu sei. O ponto final existiu, doeu, feriu, cortou. Mas, olha só, eu juro, eu prometo. Hoje eu não vou chorar. Nem por mim e menos ainda por você.

Hoje eu acordei querendo sorrir pro espelho, moço. Hoje eu não preciso mais fingir. Hoje eu não preciso te amar escondido. Hoje eu não preciso desviar o olhar quando você chega, só por saber que se os nossos olhos se encontram todo mundo vê o que você finge - muito bem - que não existe. Hoje eu não preciso dar desculpa nenhuma para as minhas amigas, que não entendem como eu preferia passar a noite de sexta-feira trancada em casa e ainda aparecer sorrindo na manhã seguinte. Hoje eu não preciso ficar acordada, com o telefone grudado na mão, esperando uma ligação, uma mensagem, um talvez qualquer. Hoje eu não preciso tomar cuidado com o que conto para os nossos amigos, com medo de deixar escapar alguma pista sobre o seu sumiço na noite passada. Hoje eu não tenho que mentir. Hoje eu não tenho aventura da madrugada pra esconder.

Hoje eu te agradeço e me liberto das tuas infinitas regras, das visitas secretas, das juras nunca cumpridas, dos planos desfeitos e dos suspiros proibidos. Hoje eu me liberto de você. Quero mais é que o mundo exploda e esse quase-amor vá junto com ele. Sim, eu disse quase. É que amor, meu bem, é outra coisa. Isso que a gente cultivou por anos pode ter vários nomes. Química, pele, afinidade, resquício de sei-lá-o-quê, saudade, costume ou até comodismo. Mas, definitivamente, não é amor. Não era. Mas deixa isso pra lá, o interfone tocou, a galera está me esperando e tô indo nessa. Amanhã eu penso nisso. Amanhã eu posso até chorar, querer discar o teu número, querer te pedir pra voltar, mas hoje não.

Hoje é sexta-feira e o meu telefone vai ficar em casa.

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