DO QUE NÃO VOLTA MAIS


Segurei meu rosto entre as mãos, escondendo-me entre os dedos. Precisava encobrir os receios que pulsavam em minha íris. Sempre foi maldito esse meu olhar, porque meus olhos não sabem mentir. Ele estava parado em minha frente, segurando a chave do carro como se fosse uma válvula de escape. Bem verdade, era.

 — Sinto muito. — ele disse. — Mas preciso ir. Não daquele jeito que sempre fui, mas definitivo. Eu vou. E te amo, talvez. Mas não volto mais. Sinto muito.

As mesmas mãos que tentaram esconder meus receios não foram suficientes para conter minhas lágrimas sempre tardias, sempre atrasadas, quando vi seu carro virando a esquina. A mesma esquina pela qual o vi voltar tantas outras vezes querendo tentar mais uma vez. A mesma esquina pela qual passei correndo debaixo de chuva ou sol, procurando aqueles braços que sempre voltavam pra me proteger quando o mundo insistia em me fazer menina.

Não daquele jeito que sempre foi, não para voltar depois de cinco minutos me dizendo que se arrependera, não pra ligar no dia seguinte dizendo que me sequestraria para uma noite incrível, não para aparecer de surpresa no portão me perguntando o que vamos pedir pro jantar. Desta vez ele se foi, sem pressa nenhuma de voltar, sem pedido de desculpas, sem perdão.

 Se foi, da mesma forma que eu fiquei.
Sentindo muito.
Sentindo tudo.
Sentindo só.


*Postado originalmente em 29 de maio de 2015, aqui.*

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