MOÇO DOS OLHOS D'ÁGUA

Saí mais cedo do trabalho naquele dia, sabendo que chegaria a tempo do trem das 21h15. Passos rápidos, quase corri. O motivo? Não faço a menor ideia.

Ao chegar na estação subi a rampa, passei na catraca e parei no começo da escada.  Droga, tô apertada, preciso ir ao toalete.  Dei meia volta e lá estava eu, já lavando as mãos. Pronto.  Esqueci a bolsa lá dentro, saco. — voltei. O blá blá blá comum dos banheiros femininos foi interrompido pelo barulho que vinha dos trilhos  Droga, droga, droga. Perdi o trem.  Passos lentos me levaram até a escada e, enquanto subia degrau por degrau — desviando dos mal-educados, pensando nas caixas pra abrir, nos móveis empoeirados e na pia cheia de louça pra lavar me esperando em casa  olhei pra cima. O motivo? Também não me pergunte, mas olhei. Foi quando o vi pela primeira vez. 

Alto, pele clara, cabelos negros, lisos e bagunçados. Mas foram os olhos, ou melhor, foi o olhar que me prendeu. Aquele mar azul decorado por longos cílios negros me congelou. Os passos que eram lentos agora quase me arrastavam escada acima. Desviei  Não precisa encarar, né. Se toca , mas num movimento espontâneo e incontrolável, olhei pra baixo e lá estava ele, parado no pé da escada a me observar. Foram segundos, talvez apenas alguns milésimos deles. Do tempo não me pergunte, perdi a noção. Mas por algum motivo que ainda não descobri, ficamos ali, parados, congelados numa infinita troca de olhares. Ele, azul-piscina. Eu, ébano. Um encontro azul-marinho. Nenhuma palavra dita, apenas um sorriso tímido surgiu em seu rosto e eu, também sem graça, retribuí.

Alguém esbarrou em mim.

Voltei à realidade, virei o rosto e continuei meu caminho, desejando voltar e dizer algo. Mas o que diria? Não queria ser a louca que persegue olhares e pessoas em estações de trem. Não disse nada e segui. Só depois, já em casa, pensei no chefe que me liberou mais cedo, nos passos rápidos sem motivo aparente, na ida incomum ao toalete da estação e da bolsa esquecida no balcão.

Se não fosse por isso, talvez nunca tivéssemos nos encontrado  Por que não falei nada? Por que ele também não falou? Um nome, pelo menos, alguma coisa.  O motivo do encontro eu também não sei e é pouco provável que um dia eu descubra. Não procuro, não corro nem espero, mas todos os dias, no mesmo local, secreta e esperançosamente desejo encontrar, mais uma vez, aquele olhar me fitando do pé da escada. Mais uma vez, o sorriso tímido. Mais uma vez, ele.

O moço dos olhos d'água, ainda sem nome.

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