SOBRE PROMESSAS E (DES)ENCONTROS.

(créditos da foto na imagem)
Aperta o play, entra no clima e boa leitura.
Samba Em Prelúdio - Vinícius de Moraes, Maria Creuza e Toquinho

Ainda lembro do dia em que me deu as costas pela primeira vez e saiu andando, como quem não tem a menor intenção de voltar, com passos lentos, olhar cabisbaixo, mochila nas costas e capuz na cabeça. Estava mesmo indo embora, sem olhar pra trás, deixando apenas a fumaça do cigarro que acabara de acender.

Não me desesperei. Não gritei. Sequer pronunciei alguma palavra. Estava bem calma, para falar a verdade. Mas uma certa brisa bagunçou muito mais do que meus cabelos negros. Bagunçou minhas ideias e, de repente, as promessas que fiz para mim mesma perderam o sentido. Sem saber ao certo o que fazia, corri. Parei na sua frente e, ignorando o pedido de "me deixa ir", me atirei em seus braços e apertei o máximo que pude. 


— O que você fazendo?
— Me dá cinco minutos, por favor. 
— Pra quê?
— Por favor.
— Não vou usar o clichê "não quero perder você", não se preocupe. Eu não te tenho, não é uma questão de posse. O que tenho é uma parte do "nós" e isso eu não quero perder nunca. Então fica, hoje, amanhã, depois de amanhã. Fica, pelo tempo que valer a pena. Fica pra ver que depois de nós, só eu ou você não faz mais sentido. Sabe, prometi pra mim mesma que nunca mais pediria para alguém ficar, nunca mais impediria alguém de ir embora. Prometi deixar as portas abertas pelo lado de dentro, mas não dá. Eu não posso te ver indo embora e ficar quieta. Eu não posso não lutar ao te ver fugindo de mim, de nós.
— Mas é isso que eu faço, é isso que eu sei fazer. Eu fujo. Eu sempre fujo. De todo mundo. Até de mim. Agora me deixa...
— Eu sei, mas eu não sou todo mundo. — interrompi, afobada — Então não foge de mim, do que tivemos, do que temos e de tudo que você, em algum lugar dessa cabeça teimosa, sabe que ainda podemos ter.
— Não dá. Eu vou embora.
— Embora pra onde?
— Pra qualquer lugar.
— Então vamos. — respondi, muito antes de pensar no que estava dizendo.
— Vamos? Vamos quem? Pra onde? Você louca?
— Não, amor. Eu não estou louca. E aí, vamos?
— Mas pra onde você quer ir?
— Pra qualquer lugar, desde que eu possa ir contigo.
— Mas eu não sei pra onde eu vou.
— Tudo bem, segura a minha mão e vamos. Não importa onde desde que você segure a minha mão, lembra. Vem?

Sorriu, deixando escapar a confusão que tomava conta de seus pensamentos por baixo dos cachos contidos. Tragou mais uma vez, segurou o cigarro entre os lábios enquanto tirava a mochila das costas e, como quem entrega o jogo, apagou o cigarro, levantou bandeira branca e... ficou.



— Você é doida, menina. — me disse, com tom risonho.
— Eu seria doida se te deixasse ir sem tentar mostrar que vale a pena ficar. Abri mãos das minhas promessas pessoais, mas sei que vale a pena.
— Ah, é? E como você sabe disso?
— Quando é amor a gente simplesmente sabe, meu bem.

Nos abraçamos como nunca antes. Era um misto de despedida com reencontro e não sabíamos explicar aquela corrente de energia que nos envolvia. Só sei que o tempo parou e nem o vento ousou soprar, não existiam mais carros buzinando, cachorros latindo ou pessoas falando. Tudo em volta silenciou num abraço.

— Vamos pra casa?
— Vamos. Mas, antes, me promete uma coisa?

— O quê?
— Nunca mais fugir de mim. De nós e...

Fui interrompida por uma mão em minha nuca e um beijo demorado. De novo o tempo parou. De novo as vozes silenciaram. 

Ainda me lembro daquele dia em que demos as mãos e saímos andando, como quem não tem a menor intenção de parar, com passos lentos e pacientes, com olhares esperançosos, mochilas nas costas e a lua na cabeça. Quebrei uma promessa naquele dia, mas ganhei um amor para a vida. 

Escolhemos caminhar lado a lado, mesmo com a vida cheia de desvios por aí. 



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