EU NÃO SEI NA VERDADE QUEM EU SOU.




Hoje pela manhã passei por uma rua que há dez anos era o meu caminho para a escola e, confesso, foi um tanto estranho me ver "do outro lado". Algumas crianças passavam por ali com o mesmo uniforme bordô que um dia vesti. Os comerciantes corriam para abrir as mesmas lojas e os mesmos ônibus levavam para lá e para cá pessoas de todos os tipos, para todos os cantos.

Desta vez eu era uma dessas pessoas que correm como se o dia fosse acabar no minuto seguinte e parecem estar sempre atrasadas – por milagre, desta vez eu não estava. Enquanto caminhava na direção contrária a da escola, me vi lembrando quem eu era, de quais eram meus sonhos, meus medos e meus desejos mais secretos. Me perguntei, então, quem sou hoje e onde foi parar aquela menina ingênua... Tão ela.. Tão... Eu.

Por coincidência, chegando ao meu destino, me pediram que fizesse uma redação e ao olhar o tema, sorri descaradamente. A frase "Quem Sou Eu?" estampada na folha em branco carregava tanta história e nem sabia. Decidi, então, colocar no papel a minha experiência daquele mesmo dia e acrescentar aquele tom de quem escreve não só pra encher o "mínimo de 15 linhas". Coloquei-me naquele papel como quem se coloca em uma vitrine.

Eu até poderia me resumir às informações presentes na ficha que acabara de preencher, com todos os dados necessários para ser julgada, localizada, analisada e condenada. Poderia também ser apenas aquilo que escrevi numa dinâmica, sobre as coisas que guardo no coração, alguns medos e coisas que não aprovo, mas a verdade é que a resposta para esta pergunta muda a cada segundo. Ninguém é a mesma coisa o tempo todo.

Posso ser a filha rebelde, a esposa carinhosa, a dona de casa elétrica, a escritora insone e a amiga ouvinte. Percebe? Essas são apenas as coisas que sou para os outros. E para mim? Quando ninguém mais está por perto e não há expectativas para atingir? Quem sou eu quando me olho no espelho, nua, crua e livre de máscaras?

Me atrevo a dizer que não tenho certeza ainda e talvez nem exista uma resposta correta, talvez ela ainda esteja em processo de formação ou, simplesmente, não exista uma única resposta. A única certeza que me cerca no momento não será suficiente para preencher as 20 linhas solicitadas.

Eu sou muito mais do que posso escrever.

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DESABAFOS DE UM DIA CINZA.



Sempre morei em casas razoavelmente grandes, daquelas com quintal, com árvores cheias de frutas, com jardins. Depois vieram os apartamentos que, por mais simples que fossem, sempre tinham uma cobertura a céu aberto, um playground, um lugar pra ir quando as paredes parecem encolher, sabe? Sempre corria para os tais "cantinhos de paz", quando tudo ficava difícil demais e a ausência de lugares assim faz com que eu me sinta como bicho em cativeiro. Me sinto menor a cada dia e os cômodos tem diminuído mais rápido do que minhas pernas, tentando escapar de tudo que berra do lado de dentro.

Sinto falta de sair na varanda só pra olhar pro céu, colocar no último volume minha playlist de dias nublados, mesmo quando a noite era de céu estrelado. Era o meu jeito de não me importar com mais nada. Sinto falta de poder andar pelo quintal, sentindo as folhas secas quebrarem debaixo dos meus pés exaustos, esbarrando em pitangas beliscadas pelos passarinhos que me acordaram logo cedo. Sinto falta de caminhar sem rumo pelas ruas enquanto a chuva tirava a maquiagem diária de fingir sorrisos. Sinto falta de voar, mesmo que nunca tenha tirado os pés do chão. E, principalmente, sinto falta do mar.

Hoje, já bem longe das ondas calmas que me faziam sentir em casa, caminho entre os carros da cidade, em calçadas tão esburacadas quanto minhas promessas para o espelho. Ainda piso em folhas secas, mas não mais as sinto debaixo dos meus pés. Não há passarinhos ou frutos mordiscados. Há um tanto de sujeira pelas ruas e um bocado de poluição pra respirar. A chuva escorre pelos meus olhos, rasgando minha pele gelada pelo vento, e não há mar para aliviar o peito.

Abro o portão, subo as escadas e aqui estou, mais uma vez, no meu cativeiro. Estranhamente, depois de algum tempo, até me parece seguro. Da meia janela metálica posso ver as cores dos prédios vizinhos, posso contemplar o pôr-do-sol na ponta do morro e me permito derramar algumas lágrimas quando ele se esconde por trás do edifício ao lado. Não há cobertura, playground, quintal ou jardim. E, confesso, todos os dias diminuo um tanto até — talvez — desaparecer, um dia, quem sabe.

As paredes ainda me assustam, não vou mentir. Ainda enlouqueço vez ou outra e saio correndo em busca do primeiro resquício de verde que encontro. Ainda me perco nas praças escassas por aí, mas no fim do dia ainda volto para a mesma janela lateral e aumento o volume da playlist de dias nublados, já que aqui tudo é cinza, mesmo quando há sol.

— Pra quê essa música nesse volume? Você ainda vai ficar surda.
— É para ver se disfarço os berros do peito.

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CHÁ PRA DUAS



O relógio marcava 01:00 e o termômetro marcava 37 graus. Já era a terceira noite insone entre antialérgicos, inalações e chá quente com mel. Não, eu não estava morrendo, mas definitivamente não estava nos meus melhores dias. Meu estado era febril, meu corpo fervia por dentro, meus olhos ardiam e meu peito chiava a cada inspiro.

— Amor, o chá tá pronto. Já levo aí.

Ela entrou no quarto com minha caneca predileta — ela nunca se lembrava qual era, mas inconscientemente, sempre escolhia a certa — e no meio daquela noite turbulenta, das manhas, dos dengos, do vapor e dos gemidos de dor foi nas batidas do meu coração que ela resolveu reparar.

— Ô coração pra bater forte — disse, sorridente.

E eu quis responder, falar baixinho que não era pela gripe nem pela tentativa de respirar sem dor, mas por ela, e somente por ela, que ele acelerava e arrebentava meu peito dia após dia, desde a primeira vez que a vi. Eu quis responder, mas não pude. Uma lágrima de felicidade (sim, felicidade também faz chorar) escorreu pelo meu rosto e caiu no travesseiro.

Terminei o chá e deixei a caneca no criado mudo que já perdera as contas de quantas noites como aquela havia presenciado. Mas dessa vez era diferente. Dessa vez ele ficaria com duas marcas redondas na manhã seguinte. A olhei como quem tenta berrar um milhão de palavras, de gratidão em sua maioria, mas me calei. Sorrindo, fechei os olhos e adormeci.

Mais uma noite em par, em paz, com o coração a mil e o amor escorrendo como rio pelos meus olhos... Dela. Com ela. Por ela. Por nós.

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