CHÁ PRA DUAS



O relógio marcava 01:00 e o termômetro marcava 37 graus. Já era a terceira noite insone entre antialérgicos, inalações e chá quente com mel. Não, eu não estava morrendo, mas definitivamente não estava nos meus melhores dias. Meu estado era febril, meu corpo fervia por dentro, meus olhos ardiam e meu peito chiava a cada inspiro.

— Amor, o chá tá pronto. Já levo aí.

Ela entrou no quarto com minha caneca predileta — ela nunca se lembrava qual era, mas inconscientemente, sempre escolhia a certa — e no meio daquela noite turbulenta, das manhas, dos dengos, do vapor e dos gemidos de dor foi nas batidas do meu coração que ela resolveu reparar.

— Ô coração pra bater forte — disse, sorridente.

E eu quis responder, falar baixinho que não era pela gripe nem pela tentativa de respirar sem dor, mas por ela, e somente por ela, que ele acelerava e arrebentava meu peito dia após dia, desde a primeira vez que a vi. Eu quis responder, mas não pude. Uma lágrima de felicidade (sim, felicidade também faz chorar) escorreu pelo meu rosto e caiu no travesseiro.

Terminei o chá e deixei a caneca no criado mudo que já perdera as contas de quantas noites como aquela havia presenciado. Mas dessa vez era diferente. Dessa vez ele ficaria com duas marcas redondas na manhã seguinte. A olhei como quem tenta berrar um milhão de palavras, de gratidão em sua maioria, mas me calei. Sorrindo, fechei os olhos e adormeci.

Mais uma noite em par, em paz, com o coração a mil e o amor escorrendo como rio pelos meus olhos... Dela. Com ela. Por ela. Por nós.

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AINDA DÁ TEMPO DE ME ARREPENDER?



Devo aceitar os fatos e, de uma vez por todas, aceitar que quando te pedi pra sair da minha vida eu estava falando sério. Tão sério que desfiz tudo que me lembrava a gente juntos. O seu cheiro, por mais que eu quisesse não sentir, já estava impregnado por todo canto. Como pode? Parece de propósito. Parece que cada objeto teu espalhado pela casa foi pensado semanas antes.

A minha camisa favorita que se tornou a sua também jogada no teu canto da cama me fez pensar mais uma vez. Devia ter levado. Não é mais minha. Não quero mais. Essa mensagem pela manhã pra me lembrar de não esquecer a tv ligada antes de ir trabalhar, foi desnecessária. Me fez ler todas as outras que trocamos durante uma vida e, droga! Saí atrasado, a tv ficou ligada e quem se desligou fui eu. 

Qualquer passo dado é motivo pra lembrar. As músicas que marcaram insistem em tocar incansavelmente. O casal na minha frente me fez lembrar a gente. Descobri que o filme que queríamos ver entrou em cartaz. A coletânea das suas series preferidas esta em promoção. A mulher que trabalha comigo usa o mesmo perfume que o teu e sorri de canto de boca quando fica envergonhada, assim como você! Meu Deus. Tudo conspira ao seu favor. Nada por mim. Desejo  viajar pra Marte, quem sabe lá nada me leve a pensar nessa escolha que eu fiz.

Um menino no sinal me ofereceu balas em troca de moedas. Ele tinha uma humildade tamanha e um carisma fora do comum, o que me fez lembrar de você sempre manteiga derretida, falando dessa carência e eu racional demais pra prestar atenção. A moça que veio sentada ao meu lado no busão tem uma filha com teu nome, elas brigavam ao telefone e minha cabeça latejava cada vez que ela repetia o nome dela.

A minha preocupação escancarada no rosto gera questionamentos. Eu queria não falar, não ter que explicar nada pra ninguém. Eu também queria não confessar a falta que me faz e que a melancolia tomou conta da casa. Converso com aquele bichinho de pelúcia que te dei e se tornou o nosso mascote. Tem sido a minha única companhia nesses dias nublados. A vida tem sido injusta, eu sei. Cadê a calmaria e aquele clichê de que vai ficar tudo bem? O orgulho sempre fez parte da gente, mas resolvi deixar de lado. Ando perdendo tantas coisas boas da minha vida por conta dele.

Por isso quero que volte pra casa, pra mim e pro nosso mascote que está cansado das minhas confissões. Quero que a gente se entenda assim como das outras vezes. Quero tanta coisa, mas pra agora eu só quero dizer que mesmo eu sendo esse ser incompreensível as vezes, é você que eu quero. Acima de qualquer coisa e dificuldades é você que eu penso como meu ponto de paz. Volta pra gente se entender daquele jeito só nosso.

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ROGÉRIO OLIVEIRA
Escritor, publicitário, boêmio, amante da fotografia e da vida. Perceptivo e leitor de sentimentos alheios.

CONTÉM 1 DRAMA!

Você se apaixona, então você vira uma analfabeta emocional. Apela para a intuição, faz a mala e parte deslumbrada e míope rumo a essa aventura que te chacoalha inteira. Embarque imediato! Rumo ao desconhecido. Você não sabe simplesmente trocar as vias e evitar a colisão. Não.

Esse tipo de sentimento é exatamente assim, chega te revirando, tirando tudo do lugar, colocando em cheque as suas certezas. Te arrebata. Te toma. Te tira do lugar comum. Sem aviso prévio, virando o seu mundo de cabeça pra baixo. Te dá poder, te coloca como sujeito da história. Ao invés de manda-lo para o porão das vontades inconfessáveis, nos agarramos a ele com unhas, dentes e todos os nossos caprichos.

À primeira vista estão ali todos os clichês. Já começa até a arquitetar: "Eu, você, dois filhos e um cachorro...", você e o poder de imaginar sempre mais do que realmente há, mudando o curso das coisas e o fluxo dos sentimentos.

A verdade é que quando encontramos alguém por quem nos apaixonamos, todas as outras coisas parecem secundárias, embora não sejam. Você acha que nada mais pode te atingir, nada mais pode dar errado, porque está dando tudo certo. Quem nunca se apaixonou não sabe como é se sentir imortal. Você, que sempre teve as suas ideologias românticas resolve confiar e dar a cara pra bater, aposta todas as suas fichas e até as moedinhas do pão, em alguém que não vale à pena, e o grande problema nessa história toda é que sapo vira-lata não vira príncipe.

Você fica pobre, endividada e sem rumo. Está com uma cicatriz enorme e com o coração todo remendado. Porque amar o homem errado é perder-se num pântano de ilusões movediças e você já teve a sua dose mais do que suficiente de ensinamentos sobre a vida amorosa, essa é a sua: Uma coleção de criaturas mitológicas, discos de vinil e sentimentos velhos. Já está num ponto em que não há terapeuta que dê conta, um poço de autocompaixão se perguntando como pôde pegar a mão errada e cair novamente nessa velha estrada que você já conhece.

A verdade nisso tudo é uma só, essas pessoas só entram na sua vida pra te fazer entender o lógico: Você só precisa da pessoa certa! Então, relaxa, a boa notícia é que tudo isso só está te tornando mais forte, se você cair em outra dessa pode ser até que o enredo seja o mesmo, mas a sua percepção com certeza não. Porque já descobriu que se tem coragem de pagar essa pequena fortuna por esse rímel, não vale à pena gastar com qualquer amor-paraguaio.

Alguns amores são mesmo um soneto sem métrica, duram apenas o tempo exato de um surto de felicidade, até o dia em que o barco certo aporta no seu porto, então, esse será o seu começo de final feliz...

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DRI ANDRADE
Intensa. Apaixonada. Complexa, Visceral. Casada. Mãe de duas cachorrinhas fofas. Ama a Deus sobre todas as coisas. Leitora voraz. Blogueira apaixonada. Designer de Interiores por formação e escritora por ansiedade e paixão. Muitas em uma. Mas que mulher não é?